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PATRIMÔNIO INDUSTRIAL E ESPECULAÇÃO IMOBILIÁRIA Posted on Sunday, June 28 @ 12:56:49 BRT
Topic:
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Patrimônio
industrial e especulação imobiliária: O CASO DA LAPA, SÃO PAULO
Cristina Meneguello, Paulo Fontes e Leonardo Silva
Recebemos
com decepção e pesar a notícia de que o Conselho Municipal de Preservação
do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental de São Paulo (Conpresp)
terminou por excluir do processo de tombamento da Lapa, região oeste da
capital, 23 imóveis antes listados para preservação. Tratam-se de oito
conjuntos de casas e sete conjuntos de galpões industriais, que haviam
sido incluídos em pauta por indicação popular em audiências públicas nas
31 subprefeituras, durante a elaboração dos Planos.
Regionais
Estratégicos, em 2004, como Zona Especial de Preservação Cultural (Zepecs),
e boa parte deles localiza-se na assim conhecida como "Lapa de baixo",
nos arredores da linha férrea usada pela empresa de cargas MRS e pela
Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM).
A
decisão do Conselho não apenas ignora a reivindicação popular como o faz
em benefício de uma operação urbana que pontilhará de edifícios residenciais
as proximidades da linha férrea da Lapa. Mais além, o faz em nome de uma
suposta ausência de valor histórico ou arquitetônico, ou do estado avançado
de deterioração de alguns bens.
Para
nós, a decisão do Conselho revela que a Lapa histórica dos trens e dos
operários é uma memória que não se quer guardar. O tombamento, conservador,
aposta na unanimidade e beneficia outros bens (também importantes) como
igrejas, colégios e o Mercado da Lapa, mas ignora claramente aquilo que
caracteriza e define o bairro em si.
Entre
os imóveis excluídos estão reivindicações antigas de moradores do bairro,
como a vidraria Santa Marina - atual Saint Gobain Vidros -, fundada em
1896 na Avenida Santa Marina, e o galpão industrial da Fábrica de Tecidos
e Bordados da Lapa, na Rua Engenheiro Fox.
Numa
tentativa de minorar os impactos da equivocada decisão tomada, o Conpresp
mantém em estudo onze imóveis no eixo entre a ferrovia e o Rio Tietê.
Urgimos o Conpresp a realizar o tombamento destes imóveis em estudo, que
representam a parte baixa da Lapa, bem como a rever a sua decisão anterior
de diminuição da lista original.
Acreditamos
que esse Conselho está ciente de que o patrimônio não é um dado estático,
muito menos uma convenção aprendida em manuais de estilo nas universidades.
Argumentar, como fez recentemente o DPH, que o patrimônio industrial é
desprovido de “valor arquitetônico”, ao mesmo tempo em que
envergonha nossos bons arquitetos e urbanistas que compreendem a natureza
dos processos de registro e permanência da memória, implica desconhecer
em profundidade os processos produtivos e os valores estéticos da produção
industrial – em escala, planejada e dentro de um saber comum de
especialistas não necessariamente renomados. Em suma, implica desconhecer
o que seja valor arquitetônico. Qual será a opinião arquitetônica destes
mesmos especialistas sobre os monstros neoclássicos (sic) que a especulação
imobiliária semeia nessas áreas? Ademais, felizmente aqueles que nos antecederam
na história não se serviam de argumentos tão simples como o do “estado
de ruína” para condenar os edifícios, caso contrário, provavelmente,
as cidades de Roma e Berlim, para ficarmos apenas em dois exemplos óbvios,
teriam sido há muito consideradas “irrecuperáveis”.
A
cada época seu patrimônio, a cada tempo a sua arte. A Lapa histórica possui
importância arquitetônica, urbanística e registra uma memória do trabalho
que, uma vez apagada, não poderá ser recriada. Os grupos organizados e
a população de São Paulo não serão convencidos de que não se deva preservar
tais locais de profunda importância histórica, cultural e ambiental (as
palavras que compõem o título do Conpresp), seja pelo passado industrial,
seja como marcos de referência afetiva das comunidades locais.
Conhecemos
a força da especulação imobiliária, e o caráter atraente que os leitos
ferroviários e galpões têm para essa forma de construir a cidade. Conhecemos
também a tática de esperar que os locais de importância histórica se deteriorem
para depois taxá-los de irrecuperáveis. Confiamos que o Conpresp compreenderá
a quem de fato representa.
Cristina
Meneguello é doutora em história e docente na Universidade Estadual de
Campinas (Unicamp).
Paulo
Roberto Ribeiro Fontes é doutor em história e docente da Fundação Getúlio
Vargas, Rio de Janeiro.
Leonardo
Gomes Mello e Silva é doutor em sociologia e docente da FFLCH, Universidade
de São Paulo (USP).
Os
três autores são membros fundadores do Comitê Brasileiro de Preservação
do Patrimônio Industrial – TICCIH-Brasil.
FONTE: http://www.vitruvius.com.br/minhacidade/mc262/mc262.asp
Minha
Cidade 262 – junho 2009
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